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terça-feira, 6 de dezembro de 2011

A Mitologia Africana Representada na HQ: Orixás – Do Orum ao Ayê

Por mais interligado e interativo que esteja o mundo, ainda há muito “pré-conceito” com a "cultura africana" e suas lendas, mitos e ritos. Esta cultura é cruelmente marginalizada por grande parte das pessoas, que são intolerantes e vivem em estado constante de alienação étnico-cultural. Em contraponto a esta situação, demonstrando respeito à diversidade cultural, em julho de 2011 houve o lançamento da HQ "Orixás – Do Orum ao Ayê", que retrata a criação do mundo segundo a cultura Yorubá. Uma empreitada ousada para uma revista nacional, tendo em vista que o HQ nacional é tão marginalizado quanto a "cultura africana".

Culturas Africanas
Primeiramente devo "corrigir" algo que escrevi propositalmente, pois dizer "cultura africana" é ser generalista e desrespeitoso, pois desta forma não estamos reconhecendo cada cultura africana como individual, mantendo desta forma a visão estereotipada e sem identidade que normalmente é divulgada. Achou exagerado? Me responda se você viu o termo "cultura européia" nas capas dos livros, filmes ou HQ's? Me lembro de ver e pesquisar sobre a cultura Saxônica, mitologia nórdica, mitologia celta, cultura cigana e assim por diante, e nunca a cultura Yourubá ou banto, elas raramente (nunca) estão nas capas dos livros e revistas, quando imprimem uma capa é sob o desígnio de “Cultura Africana”. Em suma, a África é um continente enorme que ocupa 20,3% da área total de terra firme do planeta, contendo 54 países independentes, sendo detentora de diversos povos, civilizações e culturas tais como: os Yorubás, os sudaneses, os bantos, os nilóticos, os pigmeus, os bosquíamos, os hotentotes entre tantos outros. Sendo assim, há muito mais culturas e mitologias neste continente do que nos é ensinado nas escolas ou nos informado nas revistas, jornais, televisão e outros meios de comunicação. Apesar de não parecer cada mito das culturas africanas possui origem e identidade própria e muitas diferenças entre si que devem ser respeitadas e pesquisadas com cautela da mesma forma com que fazemos com as culturas européias.


Os colecionadores e os leitores assíduos de HQ's e mangás (nerds, geeks e afins), tendem a ser, por essência, leitores assíduos, curiosos e desbravadores culturais. Tal tarefa é executada diariamente de forma natural, fazendo parte do cotidiano nerd, porém ninguém nunca se questionou por qual razão  nenhuma das culturas africanas esta inserida, de forma respeitosa, no universo Geek? Ninguém nunca sentiu falta? Ou será que nunca imaginou que essas culturas pudessem ser tão ricas e bonitas quanto às culturas nórdicas, greco-romanas ou a celtas? Bem, o motivo para mim é bem claro. Acredito que seja a hora de revermos esses conceitos euro centristas.

A HQ
Desenhada por Caio Majado, com roteiro de Alex Mir, arte-final e cores por Omar Viñole, a HQ "Orixás – Do Orum ao Ayê", é o contraponto a essa situação de "descaso" com as culturas africanas. A obra lançada pela editora Marco Zero (selo infanto-juvenil da editora Nobel), não tem nada de infantil, é muito bem escrita e desenhada. Em 80 páginas os autores retratam a criação do mundo segundo a mitologia Yorubá, que para quem não sabe é muito difundida aqui no Brasil através da umbanda e do candomblé.


 A obra é dividida em cinco capítulos recheados de narrativas arrojadas que possuem uma dinâmica oral e visual muito bem estruturada, trazendo para a revista um clima ameno e toda a essência africana, pois em África a oralidade no aprendizado sempre foi muito presente em diversas culturas e civilizações. A HQ penetra e ilustra no universo de Olodunmaré, nos caminhos de Omulu, nas estratégias de Ogum e na generosidade de Oxóssi. A arte, representada aqui pelos quadrinhos, faz uma clara conexão entre o Ayê (o mundo físico) e o Orum (a morada dos deuses), justificando o nome, "Do Orum ao Ayê".

Alex Mir, Caio Majado e Omar Viñole
Conhecendo o mercado brasileiro de HQ's, que é exigente e muito preconceituoso com seus autores, há um mérito a mais nesta publicação, tanto para os autores quanto para a editora, pois conseguir publicar um trabalho com essa temática em um álbum tão bonito que está encadernado em formato grande, com papel nobre e capa dura (também há uma versão mais simples do álbum) é uma conquista para todos. Embora a arte da HQ não seja emulada nos moldes dos comics americanos, por ter uma intenção mais educativa do que somente o entretenimento, o autor Alex Mir consegue fazer uma história milenar parecer pop, sou seja, acessível, mas sem se tornar banal.

O prefácio de Octavio Cariello transmite muito bem o sentimento quando diz: “Os autores usaram de uma linguagem poderosa, apontando para uma nova geração de leitores, dos que crêem e os que apenas querem inteirar-se da concepção de mundo dos que seguem os preceitos do candomblé, para reproduzir histórias fascinantes e encantadoras". Pois bem, você não precisa crer em nenhum mito das culturas africanas para gostar deste belo HQ, basta ter a curiosidade natural do ser humano (especialmente se for nerd), respeito por essa cultura milenar (Yorubá) e a mente aberta, assim entrará e conhecerá um mundo cheio de fábulas lindas, inspiradoras e inéditas para a maioria das pessoas. Garantia de diversão e conhecimento!

Orixás – Do Orum ao Ayê
Editora Marco Zero
Roteiro: Alex Mir
Desenhos: Caio Majado
Arte-final e cores: Omar Viñole
Capa cartonada e lombada quadrada
80 páginas coloridas

3 comentários:

REGINA disse...

Excelente dica... Eu que acabei me afastando das HQ na vida adulta (não sei porque), estou ansiosa por ter nas mãos um exemplar deste volume que aborda uma das inúmeras faces das culturas africanas. É difícil de encontrar?

Tayson disse...

É nada, tem em todo lugar! Quando li o texo do Mumu também fiquei interessado e resolvi procurar. Segue o link da Saraiva: http://www.livrariasaraiva.com.br/produto/3425139/orixas-do-orum-ao-aye/

eduardo.preto disse...

Maravilha, a mitologia dos orixás tratada com o respeito que merece! Amei.

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